quarta-feira, 7 de outubro de 2009

rio 2016

(retirado de Jornal O Globo, edição do dia 05.10.2009,
Joaquim Ferreira dos Santos - Segundo Caderno, Página 10)

Sejam bem-vindos

O carioca apresenta-se ao mundo de 2016


Agora que somos olímpicos, e todos estão de olho, vou mostrar a cidade que mora cá comigo e começa aqui na esquina de Arpoador com o Largo da Mãe do Bispo, a ancestral Pedra do Sal, onde Tia Zulmira disse “Feijoada só é completa quando tem ambulância na porta”. Foi aqui também, numa noite em que a lua perfurava o nosso zinco, que nasceu o índio narigudo do estandarte do Cacique de Ramos. Sejam bemvindos, meus gringos, e já se lhes ouve ao longe, em saudação, a alvorada pela Orquestra Tabajara. Ninguém nos vence em vibração, aqui estão nossa estima e consideração. Sejam bem-vindos ao que Ivan Lessa chamou o Bananão. Reina, nos quatro cantos desta maracangalha praieira, a mais sincera sensação.

Cheguem-se aos bons, apertem os ossos que seu ouro é nosso. Raspem-se no capacho. De acordo com o ritual nativo, entornem ao santo, no pé do balcão, a primeira gota da primeira caipirinha. Dizem que fecha o corpo contra assalto. E, please, não reparem na bagunça da sala, observem as instruções de não fumar e desliguem seus pagers que a sessão já vai começar.

Somos assim. Peixe escorregadio, mané sagaz, gente boa. Tudo depende muito da hora do Brasil, do trânsito no Rebouças e do humor dos garçons do Bar Lagoa.

De sunga, vá pelo elevador de serviço. De chinelo, você não entra na churrascaria Majórica.

De medalhão no pescoço, leva dura da PM. A palavra de ordem tatuada na omoplata é relaxar. Do it. Jogamos lixo pela janela do carro, ocupamos todo o degrau da escada rolante e, sem dó, grafitamos azulejos do Portinari no Palácio Capanema. Normal. A quem reclama, dizemos “o incomodado que se mude” e fotografamos a cara do sujeito num prépago.

Ameaçamos. Voltaremos. Do poeta na calçada, arrancamos os óculos para que ele não se inspire em nossas mulheres nem conte para a polícia que viu a gangue da bicicleta.

Somos amigos dos amigos e escrevemos a sigla no muro do Colégio de Aplicação. Ninguém esquenta além da conta. Está na bandeira colocada ontem à noite pelo novo comando que ocupa o morro do Leme: “Felizes por natureza”.

Quando os professores terminarem a greve, iniciada por Darci Ribeiro no Calabouço, será dada aos senhores visitantes uma explicação mais racional do fenômeno. Quem somos? Para onde vamos depois da praia? Que time é teu? Qual o ônibus que passa na Toneleros? Por que o chope sem colarinho? Por enquanto, faça como os demais na fila do cartório. Be cool.

Todas essas perguntas caíram em exigência, precisam de que se reconheça a assinatura autenticada do requerente — e, por favor, em duas vias. Hoje é ponto facultativo, o guichê das respostas fechou. Volte para a semana que amanhã é Dia do Santo e depois de amanhã, feito o amor na boca do poeta, ninguém sabe o que será. De resto, querido gringo, junte-se aos bons. Já é! Fale com o corneteiro da Visconde de Pirajá, tente uma explicação com a esfinge daquele senhor na Pedra da Gávea, pague obrigações com a Mãe Valéria de Todos os Postes.

Eles também pesquisam os mistérios que se escondem nos corações desses humanos cariocas, alguns escritos há dez mil anos nos desenhos que os tatuís deixaram na praia.

Nunca ninguém saberá tudo sobre essa mania de aplaudir o primeiro pôr do sol do horário de verão, quem deu a ordem para desprezar o sinal vermelho depois das nove e quem foi o primeiro a gritar “corre, é arrastão”.

Definitivamente, demorar-se-á a sabê-lo.

Que adorável compulsão machadiana é esta de, assim que há quorum para fechar uma roda, alguém puxar os palitinhos do bolso e começar “Quero cinco”, “Me dá lona”. É a nossa bolsa de valores. Fotografe. Siga as ordens do guarda municipal, passa o da cerveja e, take it easy, relaxa maneiro. Olhe para a direita e veja as amendoeiras da Glória. Olhe para a esquerda e ouça o negão gritando “Arrepia, Salgueiro!”.

Somos felizes como pinto no lixo, na definição de Jamelão, catedrático do ritmo da nossa escola primeira. Somos uma cidade que a todos seduz, na definição do hino das ruas, porque de dia faltava água e de noite faltava luz, mas agora somos olímpicos. Ninguém se dá ao respeito, ninguém liga muito para o peito.

É a civilização construída em cima da exclamação “Que bunda!”, o mantra nacional.

Outra expressão em voga — sussurre no ouvido das arquitetas do Casa Cor que elas desfale-ce-rão — é sus-ten-ta-bi-li-da-de. Diga como se pingasse colírio, gota a gota, gata a gata.

O resto é maresia, aleivosia e poesia. Os homens têm olhos de azul ardósia. As mulheres zinem. O avião passa aos domingos na praia, buzina e mostra a faixa “Sexo é bom”.

Tem mais na próxima semana, mas foi o que eu consegui apurar para transmitir — Quem somos? Quem está com a mão amarela? Quem sabe o resultado do bicho? — aos novos visitantes.

Joguei búzios com tampinhas da cerveja barriguda Black Princess no Pavão Azul de Copacabana. Olhei nos mapas roubados do Arquivo Nacional que encontrei na feira da Praça Quinze. Ajustei a lupa sobre as cartas da princesa Isabel que um tataraneto vendeu por mil réis ao Sebo Seboso da Praça Tiradentes. Mexi na borra do café da Camila Pitanga. Eis o que consegui apurar para o perfil do carioca e gostaria de receber algum, pois poderia estar roubando, escrevendo crônica ou jogando areia na barraca do vizinho. Eu mais não soube porque os entrevistados desconfiaram de ser pesquisa para a venda de celular. É pau, é pedra, é nós na fita, reinventando os arcos do símbolo olímpico.

Zero de conduta, zero de informação e, de noite, Leite de Onça no Zero Zero. Fiquem à vontade, querem um copo de água do filtro?, e não reparem a gritaria que vem do primeiro andar.

Abram a janela sem medo que a temporada da dengue está longe. Relaxem. Ouçam à esquerda a sinfonia de pardais, ouçam à direita o convite à pamonha quentinha e ao fundo as mentiras que o repórter da “New Yorker” assacou contra nossa curiosa civilidade. Deixe no cofre do hotel o passaporte apenas por precaução, para evitar molhar no banho de mar a fantasia de todo meio-dia. That’s the real e grande carioca. Já disseram de tudo sobre essa gente humilde, sua cadeira na calçada e a vontade de chorar. Agora tem mais essa. Gente olímpica.

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